Bernardino Preto
Máscaras e pequenas peças
Já nonagenário, continua a fazer máscaras de careto, porta-chaves e outras peças, que vende no antigo café da aldeia, hoje transformado em espaço de artesanato.

Uma aldeia, dois povos
Aldeia em Área Protegida2017Uma das 7 Maravilhas de PortugalSaber mais 
Rio de Onor é, talvez, a aldeia mais singular de toda a Terra Fria Transmontana — reconhecida internacionalmente pela sua organização comunitária de direito consuetudinário, um dos exemplos mais notáveis de vida em comum ainda preservados na Península Ibérica. José Saramago visitou-a e deixou-a registada em “Viagem a Portugal”, e ao longo do século XX foi também objeto de estudo de arquitetos e etnólogos fascinados pelo seu modelo de autogoverno.
Aqui, a vida sempre se fez em comum: o mesmo rio, as mesmas famílias e uma entreajuda que atravessa o trabalho de todos os dias. Os próprios moradores falam de si como “povo de cima” e “povo de baixo”, mas decidem, trabalham e festejam como uma só comunidade.
O governo da aldeia cabia ao Conselho de Vizinhos, a assembleia com representantes de todas as famílias, conduzida por dois mordomos eleitos. Quem faltava a uma tarefa comunitária via a infração marcada na Vara da Justiça e pagava a multa — muitas vezes em medidas de vinho ou de azeite, sem tribunal nem posto policial a mediar. O touro comunitário, hoje presente no brasão local, cobria as vacas de toda a aldeia; o gado pastava numa única manada, guardada por turnos (a vezeira); e até o pão se cozia em comum, com as mulheres de casas diferentes a revezarem-se no forno da aldeia. Até as fechaduras contam essa história: os “carabelhos” de madeira que ainda trancam algumas portas não impedem, de facto, ninguém de entrar — funcionam apenas pela confiança entre vizinhos.
Este mundo está hoje documentado na Casa do Touro, museu inaugurado em novembro de 2018 no antigo curral onde vivia o touro do povo, com peças originais, realidade virtual e um núcleo documental que reúne fotografias do arquiteto Sérgio Fernandez e registos do etnólogo Michel Giacometti. A par do comunitarismo, a aldeia preserva ainda o rionorês, dialeto de raízes leonesas partilhado com a sua anexa Guadramil — um dos raros territórios de língua leonesa em Portugal. Freguesia autónoma até 2013, ano em que a reforma administrativa a fundiu com Aveleda, Rio de Onor foi distinguida em 2017 no concurso Maravilhas de Portugal — Aldeias, na categoria “Aldeia em Área Protegida”, reconhecimento da sua integração exemplar no Parque Natural de Montesinho.
“Uma aldeia, dois povos.”

Aldeia em Área Protegida
2017
Em 2017, Rio de Onor foi eleita Aldeia em Área Protegida, uma das sete vencedoras do concurso 7 Maravilhas de Portugal, Aldeias, cujo resultado foi conhecido na gala de 3 de setembro, em Piódão.
A distinção reconhece a ligação da aldeia ao Parque Natural de Montesinho, as casas de xisto e a vida comunitária que ainda a define. O monumento que assinala o prémio fica num miradouro sobre as casas, com um baloiço, e é um dos locais mais fotografados da aldeia.
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Museu inaugurado a 25 de novembro de 2018, no antigo curral onde vivia o touro comunitário. Ocupa dois andares: no rés-do-chão, óculos de realidade virtual a 360º recriam o espaço tal como funcionava enquanto curral do gado do povo; no andar superior, o foco passa para o Conselho de Vizinhos e a Vara da Justiça, com peças originais como duas tábuas de madeira dos anos 1920, a canada usada para servir vinho nas reuniões do Conselho e a corrente que fechava a fronteira depois do 25 de Abril de 1974. Tem ainda um núcleo documental com fotografias do arquiteto Sérgio Fernandez (que estudou a aldeia entre 1962 e 1992) e registos do etnólogo Michel Giacometti. Entrada gratuita, de quarta a domingo.
Durante séculos, Rio de Onor geriu-se sem tribunal nem posto policial: as decisões da aldeia cabiam ao Conselho, assembleia com representantes de todas as famílias e conduzida por dois mordomos eleitos. Quem faltava a uma tarefa comunitária ou desrespeitava uma regra via a falta registada na Vara da Justiça e pagava a multa correspondente — muitas vezes em medidas de vinho ou de azeite. Um sistema de autogoverno e justiça informal que se manteve, na prática, até bem dentro do século XX.
A par dos fornos, moinhos e lameiros geridos em comum, o gado da aldeia pastava numa única manada, guardada por turnos por cada família — sistema conhecido na região como vezeira. O touro comunitário, mantido pela aldeia para cobrir as vacas de todos, era o símbolo maior dessa entreajuda, e dá hoje nome à Casa do Touro.
Liga as duas margens do rio Onor, unindo o povo de cima ao povo de baixo, no coração da aldeia.
Fechaduras de madeira tradicionais, ainda visíveis em portas da aldeia — funcionam por confiança mútua entre vizinhos, não por segurança real. Um símbolo vivo do espírito comunitário de Rio de Onor.
Uma aldeia, dois povos: os habitantes falam de si como "povo de cima" e "povo de baixo", mas sempre viveram como uma só comunidade, partilhando o forno, o rebanho, os lameiros e as decisões do Conselho de Vizinhos.
Bernardino Preto
Máscaras e pequenas peças
Já nonagenário, continua a fazer máscaras de careto, porta-chaves e outras peças, que vende no antigo café da aldeia, hoje transformado em espaço de artesanato.
Pedro Fernandes
Madeira e xisto
Com atelier aberto na aldeia desde 2016, trabalha a madeira, incluindo a Vara da Justiça, e peças de xisto com imagens e ímanes.
Máscaras de careto
Na aldeia, a «Casa das Máscaras» mostra as máscaras de careto feitas à mão, pintadas em tons vivos de vermelho e amarelo, que dão rosto às festas de inverno da região.
Cestaria e carpintaria
Ofícios tradicionais ligados à economia de subsistência da aldeia — cestos para o campo e peças de madeira para casa e lavoura —, ainda praticados e transmitidos de geração em geração.
Festa dos Reis
Fim de semana anterior a 6 de janeiro
Em Rio de Onor a festa é a dos Reis. Dois caretos e a Filandorra, acompanhados pelos mordomos, percorrem as casas num peditório de fumeiro, e à noite cantam-se os Reis de porta em porta, com toda a comunidade.
O que a distingue: A Filandorra: um rapaz vestido de mulher à antiga, com uma renda a tapar a cara, que dança e finge fiar linho ou lã com a roca e o fuso.
Conhecer todos os caretosA igreja matriz de Rio de Onor, dedicada a São João Baptista, tem torre sineira com dois sinos e relógio, e a sua festa celebra-se a 24 de junho, com a aldeia toda reunida.
Percurso circular de 7 km, de dificuldade média, que começa à entrada da aldeia, junto ao Parque de Campismo Rural. Segue primeiro por estrada de alcatrão para sul e, ao fim de cerca de 900 m, por um estradão no troço mais alto, com amplas vistas sobre os montes. Desce depois até ao rio, ao Cimo do Couto de Baixo, e regressa por um pequeno trilho junto ao rio Onor e a um lameiro, atravessa o rio e percorre terrenos comunitários até à aldeia. A altitude varia entre 686 e 770 m. No caminho ficam um carvalho-negral centenário, classificado como Árvore de Interesse Público em 2012, uma fraga junto ao trilho de regresso, a igreja matriz, a ponte oitocentista sobre o rio Onor, a forja, o forno comunitário e os moinhos da margem do rio.
Trajeto fornecido pelo Município de Bragança. 6.9 km, circular, com início e fim junto ao Parque de Campismo.
Uma placa ao lado da porta, numa parede de xisto, identifica a forja comunitária de Rio de Onor. Como o forno, os moinhos e os lameiros, a forja foi um bem partilhado por toda a aldeia, que durante séculos dependeu de entreajuda para trabalhar a terra.
O rio Onor atravessa a aldeia e deixou nela as suas marcas: a ponte de pedra, as poldras para passar de uma margem à outra, o lavadouro coberto e os tanques de xisto, que ainda hoje se veem junto à água.
Rio de Onor também se lê nas paredes. Numa empena, o nome da aldeia aparece em letras azuis sobre um desenho de casas e entramados de madeira. Junto ao rio, um veado pintado a laranja, entre flores e erva, olha a água. E numa porta velha, a silhueta de outro veado destaca-se entre árvores. Pinturas que juntam a arte às casas de xisto e à natureza do Parque Natural de Montesinho.
Logo à entrada de Rio de Onor, junto ao rio, fica o Parque de Campismo Rural. É também o ponto de partida do percurso PR11 e uma boa base para conhecer a aldeia a pé.
Em frente ao parque, à entrada da aldeia, uma fila de troncos com marcas entalhadas evoca a Vara da Justiça, o símbolo do antigo autogoverno de Rio de Onor. Na vara de madeira registavam-se, com entalhes, as faltas de quem não cumpria as tarefas do povo, e a multa era paga ao Conselho de Vizinhos. A vara aparece também no brasão de Rio de Onor.
Contacto do parque de campismo: 933 337 371 · 938 585 693 · 273 327 680 · am.terrafria@amtf-nt.pt
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Parque de Campismo Rural de Rio de Onor
À entrada da aldeia, junto ao rio, é o ponto de partida do percurso PR11. Tem bar e snack-bar, eletricidade para tendas e caravanas, grelhadores, balneários com água quente, wi-fi e sala de estar com TV. Pode tomar-se banho no rio, em frente ao parque. Abre obrigatoriamente de 15 de maio a 15 de setembro e a entidade gestora procura mantê-lo aberto todo o ano, por isso convém confirmar antes de ir.
Casa do Rio
Casa de alojamento em Rio de Onor, com sala com lareira, cozinha equipada, quartos, casa de banho com duche, varanda e um jardim junto à aldeia.
Casa da Portela
Turismo rural com 4 quartos, todos com casa de banho privativa, no coração do Parque de Montesinho — observação de veados, corços, javalis e lobo-ibérico, bicicletas gratuitas.
Trilho D'Onor
Restaurante de cozinha tradicional transmontana, na própria aldeia.
Restaurante Palheiro
Restaurante na Rua Central, em Rio de Onor.
Bar da Associação
Café e gelados — o ponto de encontro informal da aldeia.
Distinguimos o que é específico desta aldeia do que é património gastronómico partilhado por toda a região.
Pão do forno comunitário
Ao contrário da maioria das aldeias, em Rio de Onor o pão chegou a ser cozido em comum: mulheres de casas diferentes juntavam-se, por turnos, no forno da aldeia para cozer o pão que alimentava toda a gente — um dos exemplos mais citados da vida cooperativa local.
O Ramo da Festa dos Reis
Ligada ao ciclo do Natal e Reis (também chamada Festa dos Rapazes noutras aldeias da região), a recolha porta a porta — o "ramo" — inclui tradicionalmente chouriça e salpicão, por vezes com doces e chocolates. Em Rio de Onor, quem faz hoje a recolha são as moças da aldeia.
Posta à Mirandesa
Prato emblemático de Trás-os-Montes e Alto Douro, feito com carne de raça Mirandesa grelhada — não é exclusivo de Rio de Onor.
Fumeiro regional
Alheira, chouriça, salpicão e presunto da matança do porco — tradição comum a toda a Terra Fria Transmontana e ao Parque Natural de Montesinho.
Javali à moda transmontana
Javali marinado em vinho, louro, cebola, colorau e alho, cozinhado lentamente em pote de ferro — prato de caça típico da região de Montesinho, não específico de Rio de Onor.
Rio de Onor fica no coração do Parque Natural de Montesinho e na Rede Natura 2000. O rio Onor, os lameiros, os soutos e os carvalhais à volta da aldeia dão abrigo a uma vida selvagem rica, que se vê melhor ao amanhecer e ao fim do dia.
Em 2017, Rio de Onor venceu a categoria "Aldeia em Área Protegida" do concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, pela sua integração no Parque Natural de Montesinho.
"Uma aldeia, dois povos": os habitantes falam de si como "povo de cima" e "povo de baixo", mas decidem, trabalham e festejam como uma só comunidade.
O rionorês, dialeto de raízes leonesas que mistura português arcaico, castelhano e leonês, ainda é falado ou compreendido por parte da população — Rio de Onor integra, com a sua anexa Guadramil, e ainda Terras de Miranda e Quintanilha, os poucos territórios de língua leonesa em Portugal.
José Saramago visitou e descreveu Rio de Onor em "Viagem a Portugal" (1981).
O arquiteto Sérgio Fernandez, figura maior da Escola do Porto, veio a Rio de Onor em 1962-63 para estudar a habitação popular na sua tese de licenciatura; as fotografias que ali tirou ao longo de trinta anos (1962-1992) integram hoje o núcleo documental da Casa do Touro, a par de registos do etnólogo Michel Giacometti.
Até 2013, Rio de Onor foi freguesia autónoma; a reforma administrativa desse ano fundiu-a com Aveleda, dando origem à atual União das Freguesias.